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por
Hitoshi Nomura
Seis meses antes da independência do Brasil nascia Johann Friedrich Theodor Müller, na cidade de Windscholzhausen, perto de Erfurt, Alemanha, em 31 de março de 1822. Seu pai foi o pastor protestante Johannes Friedrich Müller, enquanto que o avô materno foi o conhecido químico J. Bartholomaeus Thomsdorff. Fritz faleceu na cidade de Blumenau, Santa Catarina, em 21 de maio de 1897.
Fritz aprendeu as primeiras letras na aldeia de Muhlberg. Em 1835 ingressou no ginásio de Erfurt, juntamente com seu irmão Hermann. Ele tinha inclinação para a matemática e as ciências naturais e escolheu as universidades de Greifswald e Berlim para estudá-las. Obteve o título de Doutor em Filosofia na Universidade de Berlim defendendo a tese De hirudinibus circa Berolinum hucusque observatis, em 1844. Também teve mestres como Lichtenstein e Erichson (zoólogos), Hornschuch e Kunth (botânicos) e Johannes Müller (fisiólogo).
De 1845 a 1848 ele estudou Medicina na Universidade de Greifswald. Seu desejo era ser médico de bordo de algum navio que aportasse em países estrangeiros. Nessa época a Alemanha estava se revoltando contra a influência do clero e contra as arbitrariedades cometidas pelo governo. O ambiente não era favorável às manifestações do seu gênio. Por isso ele partiu, a 20 de maio de 1852, com a esposa e filha e mais o irmão Hermann (também com a respectiva esposa), a bordo do navio Florentin, no cais de Hamburgo. Na noite do dia 18 de junho de 1852 eles desembarcaram na Ilha de São Francisco, litoral da então Província de Santa Catarina. Tinham sido atraídos pela propaganda feita por Hermann Blumenau, que desejava povoar uma colônia ao lado do rio Itajaí. Eles chegaram à ilha num domingo, 22 de agosto de 1852. O fundador da colônia registrou no diário: “Tempo nublado, com vento sul e fortes pancadas de água; o Dr. Müller e seus companheiros chegaram.”
Quem estiver interessado na família de Müller deve ler o livro de Carlos Fouquet, do Instituto Hans Staden, de São Paulo – O ramo brasileiro da família do Dr. Fritz Müller (São Paulo, 1947). Uma alentada biografia foi escrita pelo seu sobrinho Alfred Möller, sob o título Fritz Müller – Werke, Briefe und Leben (Iena, 1915-1921 – 3 volumes, reproduzindo todos os seus trabalhos científicos). Hermann von Ihering traçou algumas linhas sobre Fritz Müller – Necrológio, na Revista do Museu Paulista volume 3, p.17-29 (1898). A primeira biografia mais completa foi escrita pelo historiador catarinense José Ferreira da Silva, Fritz Müller – Bio-bibliographia de um grande scientista (Alba, Rio de Janeiro, 1931, 88 p.) e depois por Moacir Werneck de Castro, O Sábio e a Floresta – A extraordinária aventura do alemão Fritz Müller no trópico brasileiro (Rocco, Rio de Janeiro, 1992, 139 p.). Também publicamos uma breve biografia: Fritz Müller (1822-1897) – apud Vultos da Zoologia Brasileira volume 1, p.14-15 (1997, Mossoró, Fundação Vingt-un Rosado).
Na cidade de Blumenau ele se estabeleceu num grande terreno e começou a trabalhar como colono. De 1856 a 1867 foi lecionar matemática no Liceu Provincial de Desterro, atual Florianópolis. Nessa época trabalhou também para o governo da província, como naturalista, até 1876, quando o Museu Nacional o contratou como naturalista-viajante, cargo que ocupou até 5 de junho de 1891, após a implantação do regime republicano. Em Desterro ele fez pesquisas zoológicas relativas a animais marinhos e também realizou observações sobre plantas.
Em 1859 Charles Robert Darwin publicou o livro On the origin of species by means of natural selection (Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural). Com ele começou, então, uma profícua troca de correspondências, atividade que durou até o falecimento de Darwin em 1882. A doutrina de Darwin teve defensores como Thomaz Henry Huxley na Inglaterra, Ernst Haeckel na Alemanha, Asa Grey nos Estados Unidos e Fritz Müller no Brasil. Como ele tinha material suficiente para corroborar a teoria de Darwin, preparou o opúsculo Für Darwin, publicado na Alemanha em 1864. Darwin ficou entusiasmado com esse livro e pediu autorização ao autor para publicá-lo em inglês, o que aconteceu em 1869, com o título – Facts and arguments for Darwin (translated by W. S. Dallas, London, John Murray). O zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro, do Museu Nacional, fez uma tradução incompleta, publicada na revista carioca Kosmos, em 1907-1908, na qual faltam o prefácio, o capítulo XII e as figuras 39 e 40. Em 1960 iniciamos uma tradução completa que só foi publicada 30 anos depois, em 1990, com o título Fatos e Argumentos a Favor de Darwin (Für Darwin), co-edição Fundação Catarinense de Cultura (Florianópolis), e Departamento Nacional da Produção Mineral (Rio de Janeiro), com 103 páginas e 69 figuras. O lançamento dessa tradução foi feito em Florianópolis e Blumenau no dia 15 de março de 1990. Nesta última cidade distribuímos exemplares autografados aos descendentes do famoso naturalista.
Darwin o considerava o Príncipe dos Observadores e lhe sugeriu que escrevesse um livro intitulado Notas de um naturalista do sul do Brasil, o que nunca foi concretizado. Na praça Doutor Fritz Müller, em Blumenau, está exposta uma estátua do naturalista alemão com a observação de Darwin.
De 1844 a 1899, Müller publicou 248 artigos científicos em diversos idiomas: alemão, inglês, latim, francês e português – os quais estão disponíveis na citada obra de Alfred Möller. Em São Paulo essa obra consta do acervo do Instituto Hans Staden e do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Certamente consta da biblioteca brasiliana de José Mindlin e Rubens Borba de Moraes.
Uma das suas mais belas descobertas científicas diz respeito à fauna encontrada nas bromeliáceas. Nestas plantas ocorre acúmulo de água suficiente para permitir a proliferação de muitos seres minúsculos - protozoários, miriápodes, larvas de dípteros, ortópteros, neurópteros, tricópteros, tipulídeos e sirfídeos, turbelários, aracnídeos e até um crustáceo da família Cytheridae, ao qual ele deu o nome de Elpidium bromeliarum.
Escreve Hermann von Ihering (1898:27): “Em 1873 iniciou uma série de artigos referentes aos termítidos ou cupins. Muito o preocupou o assunto do mimetismo, modificando ele a teoria de Bates. Referiu-se especialmente às borboletas, que pela sua forma e colorido se assemelham a outras, provando que as espécies imitadas, por serem pelos pássaros desprezadas pelo seu mau gosto, gozam de propriedades protetoras que faltam às espécies que as imitam e aparecem em menor número. Num ensaio, explicando a modificação sucessiva do colorido, foi menos feliz por falta de familiaridade com a grande série de espécies aliadas, tendo sido nesse sentido completada a sua obra pelo Dr. Dixey. Estudando o assunto, Müller prestou especial atenção aos odores exalados por borboletas e aos pincéis de seda que representam o órgão dessa produção.” O mimetismo observado por ele e que difere do denunciado por Bates, ficou conhecido como Mimetismo Mülleriano.
No terreno da botânica, fez excelentes observações sobre a fecundação das orquidáceas. Ele verificou, por exemplo, que essas plantas são auto-estéreis, ou seja, o pólen de uma flor é incapaz de fecundar os óvulos da mesma flor.
A casa onde morou Fritz Müller hoje é um museu, localizado em Blumenau, Santa Catarina. Lá está exposto um microscópio muito simples, com o qual ele realizou pesquisas de grande valia. o Museu Fritz Müller publicou uma segunda edição do opúsculo de Edgard de Roquete Pinto, originalmente publicado no Boletim do Museu Nacional (1929) e intitulado Glória sem Rumor, que reproduz um discurso valorizando sua biografia.
Com poucos recursos financeiros Fritz Müller produziu excelentes artigos científicos, que são consultados até hoje. Foi um dos melhores naturalistas de campo do século XIX no Brasil.
Nota: O presente ensaio foi encomendado especialmente para a home page da Mülleriana em junho de 2003. O Dr. Hitoshi Nomura é professor aposentado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da Universidade de São Paulo, autor de centenas de títulos ligados à Zoologia e à história das ciências biológicas, dentre eles as coleções "Vultos da Zoologia Brasileira" e "História da Zoologia no Brasil". Também foi o autor da mais completa tradução, para o português, da obra Für Darwin, de autoria de Müller, que se constituiu na mais importante argumentação em prol das idéias de Charles Darwin.
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